Desde que os animais sejam bem tratados, o que há de errado em comê-los?

Existe esta fantasia de que se pode tornar a indústria pecuária num cenário de conto de fadas, em que os animais são bem tratados e vivem felizes (embora, não para sempre).

A indústria pecuária é todo menos um conto de fadas. A exploração e abate de animais em grande escala nunca será uma coisa bonita e acarretará sempre grande sofrimento. O confinamento a um espaço reduzido, a opressão e a repressão do instintos naturais dos animais são o preço a pagar por carne, leite e ovos baratos. Aqui, os animais não encontram felicidade, nem de perto, nem de longe.

Quanto aos pouquíssimos animais que têm a sorte de ser criados em explorações com boas condições, a sorte final que os aguarda não é diferente da de todos os outros. Na altura do abate, os animais são forçados a entrar num camião que os levará numa longa viagem de constante terror. Chegados ao matadouro, são empurrados para os corredores da morte, onde o ar está carregado com um cheiro nauseabundo e onde ecoam os gritos desesperados de quem está mais à frente. Alguns, estão ainda conscientes após o atordoamento falhado, quando sofrem o golpe final na garganta que acaba por pôr finalmente termo à sua agonia.

Podemos ainda tentar salvar o nosso conto de fadas e imaginar que, hipoteticamente, é possível matar os animais sem sofrimento e durante o sono. Podemos imaginar um porquinho chamado Paco que, desde que nasceu, sempre foi tratado com todo o amor e carinho pelos seus cuidadores. Quando atinge os 5 meses de idade, o equivalente a uma criança humana de apenas 2 anos, o porquinho Paco já tem peso suficiente para ser servido ao almoço. Nesta noite, o porquinho Paco foi morto sem nenhum sofrimento, durante o sono.

Hoje, o Paco não pode ver o sol, não pode rebolar na lama, não pode cheirar a terra húmida, não pode comer beterraba, não pode brincar com os seus irmãos e não pode receber um carinho da sua mãe. Não o pode fazer, porque alguém decidiu que esta era a última noite dele. Seria este o auge do respeito pelos animais? Onde está a justiça em privar o porquindo Paco da vida dele apenas para satisfazer o nosso paladar?

Obviamente, matar alguém, ainda que de forma indolor, é um mal em si mesmo, independentemente de esse alguém ter tido ou não uma vida feliz. Se falamos a sério quando dizemos que respeitamos os animais, jamais poderemos justificar matá-los somente para satisfazer o nosso paladar ou conveniência. Não há volta a dar-lhe.